domingo, 16 de outubro de 2011

WALT DISNEY (FM)

Acostumado a devassar a vida de celebridades, o jornalista norte-americano Marc Eliot escolheu Walt Disney como alvo em “Walt Disney – O Príncipe Sombrio de Hollywood / Walt Disney – Hollywood’s Dark Prince” (1993). Conhecido como um “benfeitor das criancinhas”, o pai de Mickey Mouse aparece com outros ares nesta biografia que acabo de ler: um patrão severo e uma pessoa muito difícil na intimidade. Segundo o jornalista, ele enfrentou dois problemas ao longo de quatro anos de trabalho: a tentativa dos Estúdios Disney e da família de manter intacto o mito, silenciando possíveis fontes, e a batalha judicial que travou com o poderoso clã depois que descobriu um documento que prova que Disney era informante do FBI. No final das contas, Eliot consegue revelar alguns dos esqueletos que um dos homens mais populares do mundo escondia em seu armário. Walt Disney (1901-1966) - que revolucionou as animações, deixou um gigantesco império de produtos associados a seu nome e a criação do parque Disneylândia -, combateu os sindicatos, era amigo íntimo de J. Edgar Hoover, o chefão da polícia federal americana, e participou ativamente da cruzada macarthista, denunciando seus funcionários e perseguindo celebridades. Ele fornecia aos agentes do governo norte-americano relatórios sobre atividades consideradas subversivas das estrelas de Hollywood, dos sindicatos de técnicos e das associações de artistas, roteiristas, produtores e escritores. A biografia, classificada como “não autorizada”, traz uma análise de 470 páginas de informações produzidas pelo próprio órgão estatal. Até hoje, a família do artista vencedor de 29 Oscars e 4 Emmy nega sua participação no macarthismo, sob o argumento de que ele seria apenas um “contato” do FBI. Um forte indício de que as informações divulgadas estão corretas é que nenhum processo foi aberto contra o livro, traduzido em 14 línguas. Outra curiosidade desta biografia: em plena Segunda Guerra Mundial, Walt Disney desembarcou no Brasil para colaborar com a “política da boa vizinhança”. À época, o governo Getúlio Vargas flertava com o Eixo, em detrimento dos Aliados, e os Estados Unidos adotaram uma campanha para ampliar sua influência política, econômica e cultural no país. Entre as iniciativas para aproximar as duas nações, estavam o impulso à carreira de Carmem Miranda e a viagem de 15 dias de Disney ao Rio de Janeiro. A missão do artista, instruído cuidadosamente por Nelson Rockfeller, diretor da influente Secretaria para Assuntos Interamericanos, era ganhar a simpatia dos brasileiros e o resultado foi a criação de Zé Carioca. O papagaio estreou no filme “Alô, Amigos / Saludos, Amigos”, de 1942, em que ciceroneava o Pato Donald pelo país. A passagem pela América Latina ainda rendou outros dois personagens: o Gauchinho Voador, representante da Argentina, e o galo mexicano Panchito. Todos se tornaram bons amigos de Donald, simbolizando o que deveria ser a relação com os norte-americanos.

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